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O Contexto da. Psicoterapia
GOSTARIA DE DEIXAR claro, desde o princpio, qual a relao que existe entre os meus pontos de vista e a
chamada psicologia e psiquiatria existencial. Fui treinado em Psicanlise na escola interpessoal ou 
neofreudiana; mas toda a vida tenho sido um dos que acreditam que a natureza do prprio homem deve ser 
entendida como uma base para a nossa cincia e arte de psicoterapia. Os desenvolvimentos existenciais em 
nossa cultura, quer na literatura, na arte, na filosofia ou na cincia, tiveram, precisamente, como sua razo de 
ser a busca dessa compreenso do homem. Portanto, dei grande valor a esses desenvolvimentos muito antes 
de ter ouvido falar sobre a contempornea psiquiatria existencial na Europa. Mas no sou um existencialista na 
acepo cultista europia. Penso que ns, na Amrica, temos que desenvolver abordagens que sejam 
compatveis com a nossa prpria experincia e que devemos descobrir o que necessitamos, em nossas prprias 
situaes histricas  uma atitude que, em si mesma,  a nica verdadeiramente existencial, em minha opinio. 
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O desenvolvimento fenomenolgico e existencial, em Psiquiatria e Psicologia, tem sido proeminente na Europa 
h vrias dcadas. Quer se goste ou no dos termos, as questes que levaram a esse desenvolvimento so 
genuinamente importantes e precisam ser diretamente enfrentadas. Existem numerosas nfases nesse 
movimento que, acredito, so de especial valor e que podem muito bem ser de crescente valor no futuro 
desenvolvimento da Psiquiatria e da Psicologia. Comecemos por trs dessas nfases. 
A primeira  um novo modo de ver a realidade do paciente, a que se d o nome de fenomenologia.  O mtodo 
fenomenolgico recebeu a sua forma contempornea particular, no continente europeu, graas  obra de 
Edmund Husserl. Trata-se, essencialmente e nos termos mais simples, de um esforo para aceitar o fenmeno 
como dado. Os fenomenologistas colocam-se em oposio  tendncia na cultura ocidental, particularmente 
nos pases anglo-saxes, para explicar as coisas exclusivamente por suas causas. Quando leciono em minhas 
classes de psiclogos e psiquiatras, cito um exemplo de comportamento neurtico ou psictico e pergunto o 
que isso significa; as respostas que so dadas pelos estudantes quase nunca se referem ao que a experincia 
significa mas por que o paciente faz isto ou aquilo. 
Ele fez isso porque e A origem disso  so as frases usuais. Por exemplo, se pergunto: 0 que 6 vergonha?, 
nove cm cada dez respostas diro por que a vergonha se desenvolve e nada diro sobre o que  a vergonha. 
Somos propensos a supor que, se temos uma explicao causal ou se descrevemos como as coisas se 
desenvolvem, ento teremos descrito a prpria coisa. Isso  um erro. Os fenomenologistas sustentam que 
devemos superar a tendncia ocidental para acreditar que entendemos as coisas se conhecermos as suas 
causas e que, em vez disso, devemos descobrir e descrever o que a coisa  como fenmeno  a experincia, tal 
como nos  dada, em seu estado de dado. Quer dizer, em primeiro lugar devemos saber sobre o que estamos 
falando. Isto no significa eliminar a causalidade e o desenvolvimento gentico mas, antes, dizer que a questo 
do porqu uma pessoa faz aquilo que faz no tem significado algum enquanto no soubermos o que uma 
pessoa . 
Como terapeuta, acho que eu e os meus alunos camos em interminveis impasses ao tentar imaginar o padro 
de causa- e -efeito da vergonha do paciente, por exemplo. Mas se pergunto: 
O que  que ele est tentando dizer com esse rubor?, encontramo-nos no s livres do circulo vicioso mas, 
com freqncia, aptos a oferecer uma sbita elucidao da verdadeira natureza da vergonha. A abordagem 
fenomenolgica no s adiciona riqueza e vivacidade aos dados mas tambm torna acessveis os padres de 
comportamento que eram, previamente, uma lngua estranha. 
A segunda nfase na abordagem psicoteraputica existencial  o princpio segundo o qual todos os meios de 
compreender os homens, todos os mtodos de psicoterapia, se baseiam em alguns pressupostos e que cada 
abordagem necessita continuamente de examinar esses pressupostos. Este ponto destaca-se com nitidez numa 
troca de correspondncia que hoje  muito famosa; proponho-me citar alguns trechos dela, de um pequeno 
livro intitulado Sigmund Freud  Reminiscences of a Friendship (Binswanger, 1957). 2 Trata-se de uma troca 
epistolar entre Ludwig Binswanger, um eminente psiquiatra existencial, e seu ntimo e querido amigo Freud. 
Binswanger, diga-se de passagem, foi o nico homem com quem Freud se manteve em estreita amizade, embora 
divergissem radicalmente em teoria. 
Binswanger fora convidado pela Sociedade de Psicologia Mdica de Viena a pronunciar um discurso nas 
comemoraes do 80.0 aniversrio de Freud. Apresentou um estudo clssico, s recentemente traduzido para o 
ingls, no qual sustentou que Freud tinha avanado o entendimento do homem como parte da natureza mais 
do que qualquer outro pensador desde Aristteles. Mas depois sublinhou que Freud ocupava-se do homo 
natur, isto , o homem natural, o homem no que os alemes chamam o Umwelt, o meio ambiente, o mundo 
natural de impulsos e instintos. Freud s tratou epifenomenalmente do homem no Mitwelt, isto , o homem 
como contemporneo de homens, em relacionamentos interpessoais (na terminologia de Sullivan); 
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tampouco Freud tratou adequadamente do Eu em relao consigo mesmo, isto , o Eigenwelt. Por conseguinte, continuou 
Binswanger, a arte, a religio, o amor (em sua plena acepo), a criatividade e outras atividades humanas em que o homem 
transcende o simples meio do mundo natural, no so adequadamente tratados na psicanlise de Freud. 
Por causa da idade e enfermidade, Freud no assistiu  reunio. (As celebraes so excessivas, ao modo americano!  
escreveu Freud a este amigo.) Mas, depois de ler o trabalho, escreveu uma carta a Binswanger em que expressou a sua 
apreciao, acrescentando: Naturalmente, por tudo isso, voc no logrou convencer-me. Depois. Freud afirmou: 
Provavelmente, as nossas diferenas s sero eliminadas daqui a alguns sculos. E Binswanger assinala ento em seu 
livro: Como se pode ver pela ltima frase de Freud, ele encarava as nossas diferenas como algo a ser superado pela 
investigao emprica, no como algo que exercesse influncia sobre as concepes transcendentes que esto subjacentes em 
toda pesquisa emprica. 
Espero que o ponto sustentado por Binswanger seja claro, apesar do fato da palavra transcendente ser interdita aos 
psiclogos americanos. Ele quis dizer que um conceito  anterior  pesquisa e a transcende  medida que o conceito j 
determina que espcie de dados o investigador se permitira ver em sua pesquisa. A concepo cientfico-naturalista do 
homem, que Freud sustentava, a par do seu modelo econmico, j teria peneirado e selecionado os dados da pesquisa 
emprica, para se ajustar a esse pressuposto. No se trata, em absoluto, de uma questo da pesquisa ser pobre; , antes, 
uma simples caracterstica da observao humana  ns s vemos aquilo em que o microscpio ou telescpio foi focalizado 
para ser observado. Binswanger queria dizer, pois, que as diferenas reais entre ele e Freud relacionavam-se com as 
suposies e pressuposies sobre a natureza do homem e sobre como estud-lo. E sublinhou ainda que Freud achava 
impossvel conceber o fato de que toda pesquisa  baseada em pressupostos. 
As batalhas decisivas entre as vrias abordagens da Psicologia e da Psicanlise, em nossa cultura, nas prximas dcadas, 
travar-se-o, proponho eu, no campo da imagem do homem, quer dizer, sobre as concepes do homem que so 
subjacentes  pesquisa emprica. O erro que Binswanger atacou no  mais claramente ilustrado do que na suposio, to 
preponderante na Amrica, de que a pesquisa cientfica  a nica coisa que por 
 Binswanger, Sigmund Freud, pg. 99. 
alguma razo, no tem pressupostos!  como se acreditssemos na possibilidade de permanecer lora da nossa prpria pele 
e ficar pendurados em algum ponto arquimediano, do qual observssemos toda a experincia; como se tivssemos uma 
perspectiva idntica  dos deuses no emprico, a qual no depende intrinsecamente dos pressupostos que formulamos 
sobre a natureza do homem ou a natureza do que estamos estudando, seja o que for; ou como se pudssemos ignorar 
inteiramente o fato de que a nossa prpria experincia est, a cada momento, moldando o instrumento pelo qual estudamos 
outra experincia. 
Freud era um filho da moderna era ocidental a esse respeito e nesse erro. Toda e qualquer abordagem, na pesquisa emprica 
ou na psicoterapia, possui, inevitavelmente, suas hipteses e pressupostos. Toda e qualquer abordagem cientfica est 
historicamente condicionada, tal como as abordagens religiosas ou artsticas de qualquer espcie.  E s podemos abordar a 
objetividade  medida que analisamos os pressupostos em que nos fundamentamos. 
O erro que resulta de no se perceber isso parece-me ser demonstrado, da maneira mais vvida, na atual forma contraditria 
de muitos conceitos psicanalticos. Veja-se, por exemplo, o conceito de ego. Na psicanlise tradicional,  esse o princpio 
organizador da personalidade, o princpio pelo, qual 6 realizada, na conscincia, alguma unio dos diferentes aspectos da 
personalidade. Mas, ultimamente, os psicanalistas da tradio freudiana tm assinalado a existncia de muitos egos 
diferentes na mesma pessoa. Eles indicam, por exemplo, que existe a poro observadora do ego e que h. a poro 
repressiva; o ego da realidade, o ego do prazer etc. 8 Alguns dos meus colegas superiormente 
inteligentes, em Nova York, falam agora de egos mltiplos, dentro da mesma pessoa. E referem-se a pessoas normais, 
no neurticas. Mas como podem todos esses diferentes egos tornar-se um princpio de unidade? Para comear, 
Freud descreveu o ego como se ele ocupasse uma posio extremamente difcil e frgil, fustigado pelo id, de um lado, pelo 
superego, de um outro, e pelas exigncias do mundo, de um terceiro lado. Essa repartio contempornea do pobre ego em 
camadas sobre camadas de novas roupas no altera os pressupostos inerentes no conceito original. Esses pressupostos 
foram ba-
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seados no modelo econmico e cientfico-naturalista de Freud, que descreveu a personalidade na base de 
uma concepo dinmica que reduz a vida mental  interao de foras que reciprocamente se impulsionam e 
repelem. Ora, se o ego resulta de uma tal suposio, ele no pode, simplesmente, converter-se num adequado 
princpio organizador. Com efeito, nenhum princpio organizador  possvel, exceto o jogo impessoal de 
foras. O ego est sujeito, quando impelido a assumir o papel organizador, a tornar-se um grupo mltiplo de 
reis, todos relativamente dbeis, tentando sentar-se nos mesmos tronos e capazes de cair entre os tronos. 1 
O quadro de mltiplos egos no  uma contradio em termos? Assim, o prprio significado do ego, a saber, o 
princpio unificador, dissipou-se. Ora, o erro no est nas observaes clnicas mas, antes, no prprio conceito 
a priori.  nesse conceito que a possibilidade de unidade  destruda. 
Tudo isto demonstra que devemos formular a nossa pergunta em nvel mais profundo, a saber: Em que ponto 
a prpria pessoa est cnscia do fato de que ela  esses diferentes egos? Em que ponto posso 
estar cnscio de que sou o homem que tem essas vrias tendncias  estados de nimo, prazeres, realidades e 
tudo o mais? Ora, no ponto em que se formula a pergunta: Como poderei eu estar cnscio do fato de que sou 
o ser de quem esses diferentes egos so uma expresso?, estamos fazendo a pergunta em nvel ontolgico, 
uma questo que passaremos agora a abordar. 
No creio que possamos ter qualquer grau de coeso em nosso desenvolvimento ou em nossas pesquisas 
psicanalticas enquanto a questo no for formulada nesse nvel, porquanto se trata da questo que serve de 
fundamento aos vrios componentes distintos da pesquisa. O problema, ao tratar com os componentes do 
comportamento, consiste sempre nisto: Que pressuposto  adotado a fim de selecionar esses 
componentes para estudo? E em que forma nos propomos uni-los? Temos que pres7 Foi por isso que 
sublinhei, em outro trabalho, a inadequao do conceito de ego para o entendimento da vontade e da deciso 
humanas. Cf. meu livro Love and Will, Norton, Nova York (a ser publicado) . O prprio Freud, acrescente-se, 
adotou uma abordagem diferente em sua terapia prtica e em sua vida pessoal, tendo atuado, em ambos os 
casos, na convico de que o ser humano possui alguma unidade e liberdade pessoal de arbtrio. Freud tambm 
parece ter vivido e pensado sempre dentro do dilema entre o seu modelo mecanstico da  baseado no 
determinismo, e sua experincia existencial vemos um indivduo de vontade extraordinria supor alguma forma 
de relao entre os componentes e devemos uni-los, de um modo ou de outro.  este o ponto que requer uma 
investigao das concepes subjacentes que foram pressupostas. Com efeito, o meu ponto  altamente 
positivo, dado que o princpio pelo qual fazemos a seleo e a forma pela qual podemos esperar que as nossas 
observaes sejam unidas constituem a nossa contribuio criativa para o problema- Qualquer um pode 
efetuar a pesquisa, se assim posso me exprimir, desde que seja cuidadoso, inteligente e consciencioso; mas a 
contribuio original est em vislumbrar uma nova forma para o problema. No podemos esperar que a nossa 
matemtica e a nossa metodologia assumam o fardo da nossa integridade. Insisto em afirmar que no existe 
escapatria para a necessidade de cada um de ns admitir e esclarecer, tanto quanto possvel, os princpios e 
as formas em seus prprios pressupostos. 
A terceira nfase da abordagem psicoteraputica existencial decorre diretamente das duas primeiras e  
identificada pelo espinhoso termo de ontologia. J o mencionamos acima, quando nos referimos  
formulao da questo ontolgica. A palavra ontologia provm do grego onto (ser) e logos (cincia) e  a 
cincia ou estudo do ser enquanto ser. Tudo o que eu disse at agora, a respeito da fenomenologia e dos 
pressupostos em que a nossa pesquisa e compreenso da psicoterapia se baseiam, conduz-nos para este 
problema. A abordagem existencial sustenta que devemos formular a questo da natureza do homem como 
homem, isto , a questo ontolgica. Quero apenas apresentar o termo aqui e voltarei a ele mais tarde. 
PASSEMOS AGORA a uma aplicao mais especfica desses princpios. E comecemos pela pergunta: Qual  a 
nossa unidade bsica de estudo em Psicoterapia?  uma situao deveras curiosa, quando se pensa que 
algum entre no consultrio do psicoterapeuta e senta-se numa cadeira, dentro de um mundo estranho de 
quatro paredes, imbudo de uma certa esperana de que poder ser ajudado. Como descrever a unidade de 
estudo nessa situao? Dever ser descrita como um paciente com um problema  um problema de ter 
fracassado na universidade, de incapacidade para amar ou casar e sei l qu mais? Essa seria a maneira antiga 
de definir um paciente como um problema  vescula biliar no stimo andar, como os meus pacientes mdicos 
dizem que ainda  o vernculo em alguns hospitais  e deprecia tanto o paciente como a situao. Deveremos 
dizer, antes, eis aqui um paciente que  histrico ou compulsivo, psictico ou neurtico, com tais e tais 
sintomas? Esta  a forma usual 
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de identificao, hoje em dia, mas sugiro que  tambm uma forma parcial e, portanto, inadequada. Ela implica 
que no vemos o paciente como uma pessoa mas como um conjunto de categorias diagnsticas que pode, com 
extrema facilidade, converter-se nas lentes confinantes atravs das quais as nossas percepes so filtradas. 
Ou diremos, aqui est uma pessoa que tem um problema e veio ao psicoterapeuta porque quer ficar boa? Isto 
acerca-se mais da situao real. Mas, infelizmente,  isso o que justamente no sabemos; no podemos ter a 
certeza de que essa pessoa quer ficar boa. Na verdade, podemos estar certos de que ficar boa , precisamente, 
aquilo sobre que o paciente  ambivalente; ele chega-nos com a necessidade de permanecer doente, at que 
sejam mudados outros aspectos em sua existncia. Ele chega-nos em conflito e os seus motivos, com toda a 
probabilidade, sero muitssimo confusos. 
Assim, qual  a nossa unidade de estudo? Para comear, sugiro que podemos dizer isto: Temos duas pessoas 
num determinado espao, num dado universo. Por universo entendo eu, neste caso, como no sentido 
clssico da palavra, uma estrutura de relacionamentos significativos. Essas duas pessoas, paciente e 
terapeuta, tm motivos diferentes para estar aqui. Ignoramos os motivos do paciente; contudo, ele veio aqui e, 
por conseguinte, algum ato significativo est envolvido. 
 neste ponto que eu, como terapeuta, devo formular alguns pressupostos ontolgicos, quer o reconhea ou 
no. (E estou argumentando que  muito mais salutar para todos os interessados que o terapeuta possa 
reconhecer e aclarar francamente para si prprio tais pressupostos.) O meu paciente ali est sentado na 
cadeira. Eu nada sei, praticamente, a seu respeito. Mas posso desde logo pressupor que ele, como todos os 
organismos vivos, procura preservar algum centro; e parto do princpio de que ele est aqui, sentado numa 
cadeira do meu consultrio, entregue ao processo de fazer isso. Assim, a primeira caracterstica ontolgica  
que todos os seres humanos esto potencialmente centrados em si mesmos, independentemente do grau em 
que essa centralidade esteja sendo destorcida no conflito. $ Ao mesmo tempo, pressuponho que esse homem 
O leitor notar que eu formulo o meu pressuposto de cclitralidade do organismo logo no incio, em Vez de em 
algum futuro desenvolvimento da fase do ego. O fato da neurose e psicose  a desintegrao da centralidade 
 serem doenas j pressuPe O princpio de centralidade. 
(como todos os organismos) tem o carter do auto-afirmao, isto , a necessidade de preservar essa 
centralidade. Proponho serem essas as caractersticas ontolgicas do homem como homem. Neste ponto, o 
conceito de coragem de ser, de Paul Tifflch (1952),  de importncia fundamental. A centralidade da rvore  
que  maravilhosamente desenvolvida em equilbrio e unidade, como qualquer pessoa que observe uma rvore 
bem desenvolvida pode confirmar   dada automaticamente. Mas a centralidade do ser humano depende da 
sua coragem em af ir- m-la  embora essa coragem se afirme, freqentemente, de modos altamente neurticos. 
Tillich sustenta que, se no tivermos coragem, perdemos o nosso ser. O homem  aquela criatura, na natureza, 
cujo ser depende da sua coragem; e se no for capaz, por causa do grau de patologia ou de circunstncias 
externas terrivelmente adversas, de afirmar o seu ser, ele perde-o gradualmente. 
Uma outra coisa a ser assinalada, a respeito desse paciente que veio ao meu consultrio,  que se estabelece 
imediatamente um relacionamento. Mesmo antecipadamente, quando eu ou o paciente pensamos sobre esse 
encontro, j existe um relacionamento  o que indica que eu pressuponho o relacionamento antes mesmo de 
poder observar se ele olha para mim ou para outro lado, se escuta com excessiva avidez o que eu digo ou no 
escuta coisa alguma. O paciente, como todos os seres, tem necessidade e possibilidade de sair da sua 
centralidade, a fim de participar em outros seres. Ele est agora lutando com a possibilidade de participar com 
o terapeuta. Essa sada envolve sempre um risco. 
No presente captulo e no seguinte, estou apresentando a doena, a sade e, especificamente, a neurose, com 
um significado muito diferente de qualquer que, de modo geral, lhes  dado em nossa sociedade. A partir da 
abordagem ontolgica que sugeri, vemos que a doena , precisamente, o mtodo que o indivduo usa para 
preservar o seu ser. No podemos partir do princpio de que, na usual forma simplista, o paciente quer, 
automaticamente, ficar bom; pelo contrrio, devemos pressupor que ele no pode permitir-se renunciar  sua 
neurose e ficar bom enquanto as demais condies, em sua existncia e em sua relao com o mundo, no 
mudarem. A neurose  uma atividade de ajustamento que comporta, em si mesma, o potencial criativo do 
indivduo que, de uma forma ou de outra, deve ser transferido para metas construtivas, em seu processo de 
superar os seus problemas. O neurtico , como disse Otto Rank, o ar- 
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tiste man qu e a neurose contm as potencialidades que esperamos mobilizar e reorientar na Psicoterapia. 
Em seguida, observamos, a respeito desse paciente que est agora sentado defronte ao terapeuta num nvel de percepo 
(awareness) que proponho ser a quarta caracterstica ontolgica. Eu uso agora percepo como uma caracterstica que  
compartilhada por outras formas de vida alm da humana. Um gato fugir, de um pulo, se erguermos um pau na direo 
dele; o animal est certamente cnscio da ameaa fsica  sua centralidade. O biologista Von Uexkll descreveu como 
diferentes organismos tm diferentes esquemas; ele chamou-lhes planos de percepo, com respeito aos seus universos. 
As rvores e demais plantas esto relativamente presas aos seus universos particulares; os animais possuem um maior grau 
de liberdade em seus universos respectivos; e os seres humanos tm o mais alto grau de liberdade de todas as criaturas. 
Esse mbito aumenta com a gama de percepo, isto , com a gama de possibilidade de relacionamento consciente com o 
mundo. 
Mas, s por si, o princpio de percepo no  bastante. Assim, chegamos  forma caracterstica de conscientizao nos 
seres humanos, que  a conscincia de si mesmo. Eu acredito h muito tempo que a tendncia para substituir o termo 
percepo (awareness) por conscientizao ou percepo consciente (tonsciousness), em nosso trabalho 
psicolgico,  desaconselhvel. Certo, a percepo ajusta-se mais facilmente ao quadro cientfico convencional;  mais 
suscetvel de ser subdividida em seus componentes, de ser estudada e experimentada em situaes distintas e com modelos 
mecansticos em animais e no homem. A conscientizao, por outro lado,  muito mais difcil de tratar na pesquisa, pois 
caracteriza-se pelo fato de que, se a decompusermos em seus elementos componentes, perdemos de vista o que estvamos 
estudando. A palavra awareness provm da raiz anglo-saxnia gewaer, a qual, por sua vez, deriva de waer, que se 
refere, em toda esta famlia de termos, ao conhecimento de ameaas externas  isto , ao conhecimento do perigo, de 
inimigos, um conhecimento que requer estratgias defensivas. Os cognatos dessa palavra, aware, so os termos 
wary (cauteloso, prudente, avisado) e beware (tomar cuidado, ter cautela). wareness (isto , percepo)  a 
categoria correta pan 
9 Vi-me eiiipregando os termos asinalar e observar quando me refiro a princpios ontolgicos sobrea pessoa, enquanto 
ela est realmente presente. Trata-se de princpios que eu presuponho a respeito do organismo humano qua organimo e 
observo, especificamente, nos indivduos com quem trabalho. 
J-Ioward Liddell empregar, como o fez, em seus estudos sobre a chamada neurose animal. Ele chama  
percepo, nos animais, vigilncia. Por exemplo, Liddell descreve a foca em seu habitat natural, erguendo a 
cabea de dez em dez segundo para vigiar o horizonte e assegurar-se de que nenhum esquim de arco e flecha 
est de tocaia. Liddell identificou essa vigilncia como a contraparte simples e primitiva, nos animais, do que 
nos seres humanos se converte em ansiedade. 
A conscientizao, por outro lado, deriva do verbo latino conscire e refere-se ao conhecimento que  sentido 
interiormente, isto , ao saber com, no s com os outros mas tambm co- fosco, no sentido da 
conscientizao do fato de que eu sou o ser que tem um universo. Eu posso estar cnscio (aware) desta mesa 
em que escrevo simplesmente por toc-la, Mas a conscientizao (consciousness) refere-se, sobretudo, ao 
fato de que eu posso estar cnscio de que sou o ser que tem esta mesa. A conscientizao est relacionada 
com a minha concepo de mim prprio como o ser que usa a mesa, enquanto se debate com as idias que se 
esfora por tornar claras em forma de escrita. Conscientizao  um termo que no deve ser perdido de vista. 
Refere-se  caracterstica ontolgica central que constitui o eu em sua existncia como um eu, notadamente, a 
experincia de que posso estar cnscio de que sou o ser que tem um universo. Estamos usando o termo no 
sentido da descrio de Kurt Goldstein (1939) da capacidade do ser humano para transcender a situao 
imediata, para usar abstraes e universais, para comunicar em linguagem e simbolos e, na base dessas 
capacidades, explorar e concretizar, de uma forma ou outra, a maior gama de possibilidades (maior em 
comparao com a natureza animal e inanimada) em relacionarmo-nos com o nosso prprio eu, com os nossos 
semelhantes e com o nosso mundo. Neste sentido, a liberdade humana tem sua base ontolgica e deve ser 
pressuposta em toda a Psicoterapia. 
Proponho que a experincia inconsciente s pode ser entendida na base do nosso conceito de 
conscientizao. Devemos postular que o paciente chega como uma unidade potencial, por mais claramente 
que possamos ver que vrios sintomas neurticos foram bloqueados e, por conseguinte, tm um efeito 
compulsivo sobre ele. No estou afirmando que essa unidade seja necessariamente boa; como indiquei, ao 
falar da unidade de ajustamento, pode ser uma unidade muito limitativa. Mas os prprios sintomas do 
neurtico, por mais desintegradores e disjuntivos que nos paream, vistos de fora, so expresses para 
preservar essa unidade. Para preservar essa unidade, ele tem de 
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bloquear, recusar-se a concretizar, algumas potencialidades de conhecimento e ao. 
Ora, a inconscincia consiste nas experincias que a pessoa no pode permitir-se concretizar. As perguntas, 
no tocante  compreenso dos fenmenos inconscientes, so estas: Como  que esse indivduo rejeitou ou 
aceita as suas possibilidades de ter conscincia, ou estar cnscio, de si prprio e do seu mundo?; Como  
possvel que ele se feche para algo que, num outro nvel, ele sabe e at sabe que sabe? A coisa que 
continuamente surpreende os pacientes da psicanlise e at, por vezes, surpreende o analista,  que, quando 
uma recordao ou experincia enterrada, que foi sujeita a uma represso radical, irrompe na conscincia, o 
paciente reconhece, freqentemente, ter a sbita e estranha impresso de ter conhecido essa recordao ou 
experincia o tempo todo. No nvel da conscientizao, isto no faz sentido algum; ele no era capaz de estar 
cnscio disso. Mas num outro nvel, ele sabia-o o tempo todo; estava presente ao fato dele ter tido que 
reprimir isso. Portanto, o problema que devemos equacionar no , apenas, nem mesmo principalmente, o de 
ordem mecnica: qual foi o trauma particular que bloqueou a experincia. Trata-se, antes, da questo de saber o 
que est acontecendo nessa pessoa que no lhe permite experimentar Eu sou eu; eu sou este ser com todas 
as potencialidades e possibilidades que constituem este ser, este eu. 
Note-se que eu no afirmo que o trauma original que, hipoteticamente, levou  represso, deve ser ignorado. 
Eu afirmo que o trauma, em si mesmo, no explica a persistncia da represso nem  a raio principal pela qual 
o paciente ainda reprime a experincia. 
QUERO AGORA explorar o problema do surgimento e significado da conscincia, referindo-me ao mito e 
complexo de dipo. A situao edipiana  considerada bsica na obra de Freud, como todos sabemos, e est 
presente em praticamente todas as outras escolas de Psicoterapia, de uma forma ou de outra. Na formulao de 
Frcud, refere-se  atrao de amor sexual entre uma criana e um dos pais (o filho pela me, a filha pelo pai). Por 
causa disso, a criana sente culpa e medo daquele (ou daquela) de quem  rival e, particularmente no caso dos 
rapazes medo de castrao. Fromm refere-se ao conflito edipiano da criana em crescimento como a luta com a 
autoridade dos pais. Adler considera-o uma luta pelo poder. 
Ora, em sua descrio edipiana, Freud pressups um quadro trgico da experincia humana. O beb era 
canibalstico, impelido por exigncias primitivas dos instintos; a concepo freudiana da criana pequena era 
semelhante  de Santo Agostinho, que disse: A inocncia da criana consiste na fraqueza do membro. A 
concepo trgica de Freud, segundo a qual, na situao edipiana, existe um conflito genuno entre seres que, 
em certo nvel, esto empenhados em destruir-se mutuamente est, em minha opinio, mais prxima da verdade 
da situao edipiana do que a concepo geralmente otimista e excessivamente simplista, corrente na Amrica. 
A nossa opinio  a de Rousseau  que a criana pequena no  um canibal mas tambm no  um anjo, se ela 
for nossa, ou que  potencialmente um anjo se for o filho de algum a quem estamos aconselhando. Ela  
potencialmente um anjo se as mes e outros representantes culturais a alimentassem com mais desvelo, 
satisfizessem suas necessidades e as adestrassem corretamente. Assim, no conflito de dipo, tal como foi 
aceito pelo nosso pensamento, neste pas, o aspecto trgico foi, em grande parte, omitido. Mas a qualidade 
trgica , precisamente, a razo que levou Freud, para comear, a impressionar-se com o mito de dipo. Penso 
que  uma considervel perda que a nfase trgica presente em Freud tenha sido uma das primeiras coisas 
jogadas pela borda fora quando a Psicanlise atravessou o oceano Atlntico. 
Desejo propor uma terceira abordagem. Trata-se da abordagem da compreenso da situao edipiana como o 
conflito trgico dentro da pessoa, em suas relaes com o seu mundo e outros seres humanos envolvidos, no 
surgimento e desenvolvimento da conscincia do Eu. Se revertermos ao drama de dipo em Sfocles ou em 
outras formas que nos foram dadas por sua extensa histria cultural, descobriremos que no se trata de uma 
obra teatral sobre conflitos sexuais ou conflitos sobre o assassinato do pai. Tais conflitos j esto 
ultrapassados h muito. No drama de Sfocles, dipo casou com sua me;  um bom rei e vive feliz e 
confortavelmente em Tebas. 
A nica interrogao no drama  esta: dipo reconhecer o que fez? A questo trgica  a questo de ver a 
realidade e a verdade a respeito de ns prprios. Recorde-se que o drama abre com a maldio sobre Tebas. 
Para que a maldio seja anulada, dipo, o atual rei de Tebas, deve descobrir quem matou Laio, o rei 
precedente. dipo convoca Tirsias, o vidente cego. No drama, Tirsias est associado ao papel de um 
psicanalista; o fato dele no ver externamente relaciona-se, de modo simblico, com a capacidade de maior 
sensibilidade interior, maior introviso. Da o smbolo histrico de o profeta cego. Os cegos, no podendo 
ser distrados pelas coisas externas que eles no vem, so 
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tidos, nessa forma simblica, como pessoas capazes de desenvolver maior sensibilidade para a 
verdade, num sentido psicolgico e espiritual. Creio que isto pode ser transferido e aplicado aos 
psiclogos e psiquiatras, sem que tenhamos de ser, necessariamente, cegos fsicos. 
dipo pergunta a Tirsias quem  o culpado e Tirsias res ponde: 
No lanarei o remorso sobre mim prprio E sobre vs. Por que revolves tais assuntos? 
dipo insiste que, sejam quais forem as conseqncias, deve saber quem matou Laio. Ento, passo a passo, ao 
longo de toda a pea, vemos o espantoso retrato da luta  uma trgica luta, em ltima instncia  de um homem, 
dipo, esforando-se por descobrir a verdade sobre si mesmo. Primeiro, ele descobre a verdade sobre a sua 
situao objetiva, a morte de seu pai; e, depois, descobre a verdade interiorizada, convertendo-se em verdade 
sobre ele prprio. No tarda a pressentir a existncia de um mistrio que cerca o seu prprio nascimento e que 
Jocasta, sua me, com quem ele casou na ignorncia de suas relaes de sangue, est de algum modo 
associada ao mistrio do seu nascimento. (Recordemos que dipo tinha sido levado por Laio e abandonado 
numa colina, por causa da previso do orculo de que le, dipo, mataria seu pai.) 
No decorrer da anlise dramtica, Jocasta apercebe-se, de sbito, de que dipo  seu prprio filho. Ento, ela 
compreende tambm o terrvel conhecimento com que dipo se defronta e tenta dissuadi-lo. Ela exclama: 
De que serve aos homens afligirem-se, em meio a terrores, 
Se eles vivem ao sabor da Fortuna, e nada pode ser previsto 
Com segurana? O mais acertado  abandonarem-se ao destino. 
No receies a idia de que profanars o leite materno, 
Pois muitos homens, em sonhos, j o fizeram; 
A nica maneira de consegui? a tranqilidade de esprito 
no dar importncia alguma a tais sonhos. 
Permitam-me encaixar aqui que, com demasiada freqncia, os nossos relacionamentos psicanalticos, 
psiquitricos e psicolgicos com os pacientes so da mesma natureza do discurso de Jocasta, O que ela est 
realmente dizendo : Seja uma pessoa ajustada. No tome os sonhos como se fossem realidade. Muita gente 
tem tido at agora sonhos desse gnero mas no deixe que tais coisas o perturbem. 
Contudo, dipo no ficar por a; os seus sonhos so o seu ser. Com efeito, ele diz: Devo ter a coragem de 
enfrentar a verdade, seja ela qual for. 
E ento Jocasta grita: 
No insistas nessa indagao! Eu te suplico! 
J  bastante a minha tortura e sofrimento... 
Infeliz, tomara que jamais venhas a saber quem s! 
Mas dipo replica: 
No te darei ouvidos... Para elucidar esse mistrio, No hesitarei ante obstculo algum... 
E conclui: Venha o que vier, devo saber quem sou e donde sou. J no final do drama, dipo procura o velho 
pastor que o encontrara, ainda um beb, numa colina e o mantivera vivo. Intimado a responder s perguntas de 
dipo, o pastor resmunga: Ai & mim! Ser-me- horrvel falar disso agora! E dipo responde: E horrvel ser 
para mim ouvir! Fala, pois, que assim  preciso. 
Ele toma ento conhecimento da trgica verdade: que ele foi o que matou seu pai e esposou sua prpria me. 
Aps o que arranca os olhos, o rgo da viso e do reconhecimento. Finalmente, exila-se. Acho 
que este tema do exijo 6 muito importante: ele foi exilado quando criana   onde a tragdia comea. Agora ele 
exila-se a si mesmo. Isso tambm  significativo por causa do medo do ostracismo do homem contemporneo. 
A tragdia do exlio, a tragdia do homem alienado dos seus semelhantes, est muito prxima dos problemas 
psicolgicos centrais dos homens contemporneos, em meados do sculo XX. 
O drama consiste na tragdia de vermos a realidade sobre ns prprios, fazendo face ao que somos 
e  nossa origem, a tragdia de um homem que conhece e enfrenta, num conhecimento consciente 
do seu eu, o seu prprio destino. Os verbos constantemente usados, observe-se, so conhecer, 
ouvir. descobrir ver. 
Ilustrarei isto citando um sonho de uma paciente minha. O sonho faz parte de uma longa srie e, portanto,  
apresentado numa forma truncada, embora clara, assim espero.  um sonho de uma mulher inteligente e 
sensvel, de trinta anos de idade, que sofria um grande bloqueio em sua atividade profissional e em seu papel 
sexual (casara e divorciara-se, tendo razovel experincia sexual mas sem alcanar nunca o orgasmo). 
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Seus pais eram intelectuais endinheirados que, desde o nascimento da filha at ela completar trs anos, tinham-
na abandonado a maior parte do tempo e viajado para a Europa. Ela sofria sentimentos muito fortes de 
isolamento, ansiedade e hostilidade; e, depois cedo na vida, tinha aprendido a representar papis para ser 
aceita. Ela descreveu uma relao edipiana muito bvia e pronunciada com o pai que, agora falecido, fora um 
homem talentoso mas fraco; e ela tambm tinha a forte rivalidade habitual com a me. 
Tal como numa pea teatral, o sonho desenrolou-se em trs cenas que eram progressivas. Na primeira cena, ela 
encontrou seu ex-marido, que regressara casado da Europa, no consultrio de um dentista. Faltavam-lhe dois 
dentes da frente. Ele apresentou-a  sua nova esposa e dois filhos. Ela percebeu que nunca poderia ter sido 
aquele gnero de esposa para o ex-marido; aceitou e corroborou o fato de que ele tinha feito agora um 
casamento feliz. Na segunda cena do sonho, ela via-se de p, diante de uma mulher, e desempenhando um 
papel masculino; depois, viu-se de p, diante de um homem, e desempenhando um papel feminino, Ela pensou 
para si mesma, no sonho: Sempre tentei ser essas coisas diferentes. A terceira cena do sonho foi relatada 
pela paciente nas seguintes palavras: Eu estava com uma outra pessoa, um homem com quem eu podia ser eu 
prpria; j no havia mais papis. Eu podia ser o meu eu feminino. Foi uma experincia tremenda. Depois, dei 
comigo contemplando um rio e senti uma grande ansiedade; tinha o pressentimento de que teria de saltar para 
o rio e cometer suicdio. 
As associaes do sonho em sua mente eram bastante bvias. A primeira parte implicava que ela era agora 
capaz de aceitar o casamento do seu marido; os dois dentes da frente que faltavam referiam-se, disse ela, ao 
fato de que ela o castrara, o que tinha feito. Felizmente, os dois dentes em falta puderam ser consertados. 
(Penso que o consultrio do dentista  uma comparao pouco lisonjeira, diga-se de passagem, que no 
poucas vezes ocorre com os pacientes   o gabinete do psicanalista a quem seu marido consulta.) Na segunda 
parte do sonho, ela via-se tentando esses papis para avaliar a sua capacidade, como se quisesse dizer-me: 
Isso  o que eu tenho feito toda a minha vida. A terceira cena relata a experincia tremendamente importante 
de ser ela prpria, jogando fora os papis com o grande alvio que essa atitude envolveu. Tudo isto ela viu no 
sonho. Mas o que era incapaz de compreender era a terrvel ansiedade, a sensao de que teria de saltar no rio 
e cometer suicdio. Quando ns tentamos tambm compreender o sonho,  preciso ter em mente que se tratava 
de um sonho extraordinariamente construtivo, um marco radical na psicoterapia dessa paciente. De fato, 
preconizava um avano em muitos sentidos, por exemplo, na sua capacidade de orgasmo. 
Assim, por que toda a ansiedade? Poderamos dizer que ela estava abandonando as suas defesas, renunciando 
aos papis mediante os quais lograra sobreviver, desde a sua infncia, papis esses que lhe tinham sido 
absolutamente essenciais. Tambm poderamos dizer que ela estava eliminando racionalizaes e iluses sobre 
si prpria, por exemplo, no reconhecimento de que tinha castrado o seu marido. Mas algo mais estava 
acontecendo num nvel mais fundamental desse sonho. Era um trgico reconhecimento do prprio Fado  tomo 
a palavra Fado (Fate) de Freud e uso-a agora no sentido do drama edipiano. Quando algum est apto a 
conscientizar, em sua prpria conscincia, que  a pessoa que  o ser responsvel consciente, gera-se uma 
pronunciada ansiedade, uma ansiedade potencialmente trgica. Creio ser razovel afirmar que muitos 
terapeutas, seno todos, seriam propensos, neste ponto, a tranqilizar a paciente. A ansiedade da paciente , 
obviamente, a respeito de si prpria e a tendncia seria para dizer-lhe: Sim, voc teve de eliminar todos esses 
papis e esses mtodos que usou para obter segurana; mas, agora, voc pode ser voc mesma e no precisa 
estar ansiosa a esse respeito. 
Mas eu proponho, pelo contrrio, que ela precisa estar ansiosa a esse respeito; e  esse, precisamente, o 
aspecto construtivo da ansiedade madura, trgica, que se manifesta no drama de dipo. O smbolo do suicdio, 
a capacidade de enfrentar a morte, so colocados numa posio central na abordagem existencial da Psicologia 
e da Psiquiatria. Essas coisas no so negaes, embora sejam um aspecto trgico da vida. A capacidade de 
enfrentar a morte  um requisito prvio do crescimento, da conscincia do eu. Eu tomo o orgasmo, neste caso, 
como um smbolo psicofsico.  a experincia da capacidade de abandono de renncia  segurana presente em 
favor de uma experincia mais ampla. No  por acaso que o orgasmo aparece amide, simbolicamente, como 
morte parcial e ressurreio: e no deve-. ria nos surpreender que essa capacidade de renncia, de arriscar a 
vida tenha tido, como uma de suas manifestaes, o fato dela ter sido capaz de experimentar, depois do 
sonho, um orgasmo sexual. 
Se atentarmos ainda mais detalhadamente para esse sonho, veremos que um mito fascinante est nele 
envolvido. Conquanto seja bastante bvio que o homem na terceira cena do sonho sou 
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eu prprio (o rio Hudson corre sob a janela do meu consultrio, em Nova York), existe algo muito mais 
profundo ocorrendo do que o que pode ser descrito, simplesmente, no contexto do relacionamento comigo. O 
segundo mito  o mito de afundar na gua, morrer afogado e renascer, um mito que tem sido transmitido em 
diferentes religies e em diferentes culturas  notadamente, no ritual do batismo. Afogar-se para renascer   
esse o mito do aspecto de integrao positiva da experincia da verdade. Esse aspecto integrativo tambm est 
presente no mito de dipo; Sfocles, felizmente, escreveu uma pea subseqente, dipo em Colona, na qual 
o velho rei medita sobre todos os trgicos eventos que 1h aconteceram, em sua vida to profundamente 
abalada. Assim fazendo, dipo experimenta a reconciliao consigo mesmo, a nova unidade que ocorre aps a 
trgica experincia da conscincia. 
Alguns leitores no gostaro da frase a trgica experincia da conscincia e prefeririam que a suavizssemos 
um pouco. Eu preferi usar palavras fortes, embora tenham conotaes que podem causar alguma 
desorientao. Se quisermos indagar psicologicamente o que significa esse aspecto trgico da conscincia, 
no ser difcil descrev-lo. Primeiro, certamente envolve a admisso do que fizemos: Se eu sou dipo, eu 
matei meu pai, isto , a admisso de nossas atitudes e comportamento destrutivos em relao a pessoas que 
sinceramente amamos. Segundo, significa o reconhecimento dos nossos atuais motivos de averso e 
destrutividade. Terceiro, significa a eliminao das nossas racionalizaes sobre a nossa prpria nobreza. 
Neste ponto, atingimos um nvel existencial, pois eliminar essas racionalizaes implica no s a tomada de 
responsabilidade por o que fizemos ontem, mas tambm a responsabilidade por o que farei, sentirei e 
pensarei amanh. Esta atitude envolve um outro corolrio, a saber, a solido. No ponto em que estou cnscio 
de que sou este ser, este que est atuando, que matou seu pai ou castrou seu marido, estou num ponto onde 
ningum mais pode estar, sejam quais forem as circunstncias atenuantes, este  o meu dio e esta a minha 
destrutividade; e, neste ponto, um homem relaciona-se consigo prprio num estado de solido. Eu sou o nico 
que pode tomar essa responsabilidade. 
Essa conscincia trgica tambm subentende  e  este o mais difcil ponto de todos  que uma pessoa 
reconhece o fato de nunca poder amar completamente aqueles a quem se dedicou e de restar sempre algum 
elemento de destrutividade. As nfases dadas por Freud neste ponto so de grande importncia. Na mesma 
ordem de idias, nunca podemos saber plenamente  se uma deciso que tomamos agora , na realidade, a 
deciso certa; no obstante, nem por isso deixamos de tomar uma deciso. Esse risco  inerente  
autoconscincia. Creio que envolve a renncia  onipotncia da infncia; j no somos Deus, para 
expressarmo-nos simbolicamente. Mas devemos atuar como se fssemos; devemos agir como se as nossas 
decises fossem certas. Isso  a penetrao no futuro que faz com que toda a vida Seja um risco e torna 
precria toda experincia. 
Seguindo esta linha, penso que acharemos o significado mais profundo de conscincia. Eu sublinhei-o apenas 
brevemente, embora pudssemos discuti-lo interminavelmente.  por isso que existe um relacionamento to 
estreito entre o desenvolvimento da conscincia e a psicose. Quando as pessoas, na terapia, atravessam esses 
nveis emergentes da conscincia, manifestam freqentemente o medo de se tomarem psicticas. Eu proponho 
que essas reas mais profundas do problema da conscincia fiquem para estudo subseqente, 
Eu GOSTARIA de finalizar com alguns comentrios prticos sobre as metas da Psicoterapia. O que eu disse 
implica que a ansiedade e a culpa nunca so fenmenos totalmente negativos. Deixa implcito que alguns dos 
nossos pressupostos gerais sobre sade mental  por exemplo, que a sade mental consiste na liberdade de 
ansiedade  so inexatos. As nossas metas, no tocante  ansiedade e culpa, no devem ser elimin-las (ainda 
que pudssemos faz-lo, se quisssemos!), mas ajudar as pessoas, os nossos pacientes e ns prprios a 
enfrentar construtivamente a ansiedade e a culpa. Por vezes,  dito que, em Psicanlise, em determinados 
pontos,  necessrio injetar ansiedade no paciente, caso contrrio, ele refestela-se eternamente no calor do 
relacionamento. Mas eu acredito que s temos de injetar ansiedade se, para comear, a dilumos antes. Penso 
que uma boa parte do nosso erro reside numa tendncia para acalmar a ansiedade, dilu-la e fazer o mesmo com 
os sentimentos de culpa. Creio que, pelo contrrio, a funo da terapia  dar s pessoas um contexto em que 
elas fiquem aptas a enfrentar e sentir a ansiedade e a culpa construtivamente, um contexto que  um universo 
humano, assim como um universo real, da prpria existncia de uma pessoa em relao com o terapeuta. 
Talvez esclarea melhor a questo se eu diferenar entre ansiedade neurtica e ansiedade normal. A ansiedade 
neurtica  aquela que  inadequada  ameaa de uma situao. Envolve a represso para o inconsciente. 
Expressa-se na formao de sintomas. Tem efeitos mais destrutivos do que construtivos sobre 
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o organismo. Penso que os mesmos critrios poderiam ser indicados para os sentimentos de culpa, 
embora a rea dos sentimentos de culpa seja mais controvertida. A ansiedade normal seria agora 
aceita, em grande parte, pela maioria dos psiclogos e psiquiatras, tal como a descrevi; mas, entre os 
sentimentos normais e neurticos de culpa ainda existe uma linha de batalha. De modo geral, os 
nossos colegas no gostam do conceito de sentimento normal de culpa. 
A culpa normal, em contraste com a culpa neurtica,  aquela que  apropriada  situao. A 
mulher cujo sonho citei castrou o marido e magoou-o (assim como ele a ela,  claro). No sonho, ela 
aceitou a culpa normal. Em segundo lugar, no houve represso para o inconsciente. Isso foi uma 
salutar mudana; a sua culpa em relao ao marido, durante muito tempo, tinha sido simplesmente 
reprimida sob a idia de que: Bem, ele merece isso, veja o que ele me fez. Em terceiro lugar, a 
culpa consciente ou normal no envolve a formao de sintomas. No implica, por exemplo, 
sintomas de farisasmo e jactncia. A culpa reprimida manifesta-se, freqentemente, na insistncia 
da pessoa em que est certa e agindo corretamente, na sua falta de humildade, na falta de 
capacidade para abrir-se com a outra pessoa etc. A culpa normal est associada  admisso de que 
talvez s saibamos as coisas parcialmente e envolve o reconhecimento d.e que o que dizemos pode 
ser uma deturpao parcial da verdade, S em parte podemos nos compreender mutuamente; esta  
a culpa normal. Ajuda-nos a fazer o melhor que podemos na apresentao recproca dos nossos 
pensamentos e tambm nos proporciona uma humildade, ao nos comunicarmos, que nos toma mais 
sensveis e mais acessveis uns aos outros. Em quarto lugar, a culpa normal tem um efeito 
construtivo. 
Para esclarecer o nosso exame deste tpico, o qual, na melhor das hipteses,  suscetvel de causar 
confuso, preciso dizer que a minha posio a respeito da culpa  muito diferente da defendida por 
Hobart Mowrer. Mowrer deu uma contribuio real em uma de suas primeiras teses: a de que as 
pessoas modernas se tornam doentes no s pela represso do Id, na acepo freudiana, mas 
tambm pela represso do Superego. O fato de que as pessoas, em nossa cultura, reprimem suas 
conscincias , de fato, verdadeiro e importante. Mas, depois, a terapia de Mowrer converte-se 
numa reposio do superego na vida do paciente. Isto constitui um novo autoritarismo. Pois o 
reforo pelo terapeuta dos costumes da sociedade como uma soluo do problema do sentimento 
de culpa apenas serve para tornar o paciente menos autnomo e responsvel, a longo prazo, em 
relao ao eu e aos conflitos subjacentes em seu sentimento de culpa. Aps o desenvolvimento da 
autoconscincia, no indivduo em crescimento, os conflitos nunca se resumem  simples questo do indivduo 
versus sociedade, mas assumem um significado simblico que  da maior importncia. (Os psicopatas so a 
nica entidade clnica que constituem uma exceo a essa regra.) Se a principal abordagem do terapeuta for o 
reforo dos costumes sociais, creio que ele prepara o terreno para que se gere, mais tarde, a culpa neurtica no 
paciente.  
Convm esclarecer tambm a relao entre vergonha e culpa. A vergonha est para a culpa mais ou menos na 
mesma relao que o medo para a ansiedade, Se o medo  a forma objetivada especfica de reao a uma 
ameaa, ele pode ser tratado como uma unidade em si e pode ser experimentado como tal; pode ser descrito ao 
nvel da conscientizao, pode ser objetivado, O medo  removido quando a causa externa especfica 6 
removida. Mas a ansiedade  o denominador comum subjacente na capacidade da pessoa para sentir a ameaa 
de uma forma concreta, para experimentar a sua situo precria. Portanto, a ansiedade deve ser o termo 
genrico e o medo s pode ser entendido como uma forma objetivada da ansiedade. No  uma situao 
paralela  da vergonha e culpa? A vergonha pode ser entendida em relao a um incidente especfico, digamos, 
se eu for um tipo compulsivamente correto e pronunciar erroneamente uma palavra, poderei ruborizar-me. Mas 
s poderemos compreender esse meu rubor se o relacionarmos com alguma camada subjacente da minha 
personalidade, o que ser, ento, um problema de culpa, provavelmente de culpa neurtica, em tal caso. Nesta 
formulao, culpa  o termo genrico e vergonha a forma especfica de culpa, objetivada e ligada a um especial 
incidente social. 
Penso que a culpa normal deve ser tratada existencial- mente, o que significa que todos os aspectos da 
experincia devem ser considerados. A culpa normal tem como um de seus aspectos a minha relao com os 
meus semelhantes.  o estado caracterstico quando eu no convivo francamente com eles, uma rea para a 
qual Martin Buber contribuiu significativamente. Isto , a culpa normal depende, conceptualmente, de sermos 
ou 
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no francos, humildes, amantes  se  que se pode usar o termo neste sentido  em nossas relaes afetivas 
com o prximo. Existe um outro aspecto da culpa normal que  inerente aos nossos relacionamentos com o 
nosso prprio eu: o grau em que traimos ou concretizamos as nossas potencialidades, em que somos fiis s 
necessidades, poderes e sensibilidades em ns prprios. Existe a possibilidade de culpa norni em todos os 
aspectos da experincia. Se me permitem equacionar o problema em sua formulao bsica, expressaria o meu 
ponto de vista da seguinte maneira: Quando estamos nos defrontando com a questo de decidir se trairemos 
algo significativo para o nosso ser ou lhe daremos expresso concreta, encontramo-nos num estado de 
ansiedade; quando estamos cnscios de que tramos algo significativo para o nosso ser, encontramo-nos em 
estado de culpa. A culpa neurtica  tal como no caso da ansiedade neurtica  consiste, simplesmente, no 
resultado final de uma culpa normal que foi evitada e reprimida.  sempre possvel ser especfico a respeito 
dos aspectos neurticos desses problemas, porque a neurose , por natureza e definio, uma experincia 
truncada; mas no se pode ser especfico sobre os aspectos positivos. Tudo o que podemos dizer  que uma 
pessoa deve ser aberta e livre de fazer seja o que for que esteja em causa e que deve sobreviver 
existencialmente  culpa. 
FINALMENTE, direi uma palavra sobre o encontro no relacionamento teraputico. Estar apto a estabelecer um 
relacionamento real com um outro ser humano que est passando por um transe de profunda ansiedade ou 
culpa, ou experimentando uma tragdia iminente pe  prova o melhor da humanidade que existe em todos ns. 
 por isso que enfatizo a importncia do encontro e uso essa palavra em vez de relao. Acho que o termo 
psiclogiza demais. Encontro  o que realmente acontece;  algo mais do que mera relao. Nesse encontro, 
tenho que estar apto, em certa medida, a sentir o que o paciente est sentindo. A minha tarefa como terapeuta 
 estar aberto para o mundo do paciente. Este traz consigo o seu mundo e  nele que vamos viver durante 
cinqenta minutos. Aprender a proceder assim pode exigir um grande esforo; experimentarmos em ns 
prprios a ansiedade de outrem pode ser extremamente penoso. j  bastante penoso experimentar a nossa 
prpria, quando no temos outro remdio seno carregar conosco o nosso prprio mundo. Falando em termos 
prticos,  por isso que a terapia se reveste e tanta importncia para ns prprios; a minha psicanlise 
pessoal certamente me ajudou muito, ao habilitar-me para aceitar  a ansiedade e a culpa nos pacientes, no 
tentando pr de lado a dor ou encobrir as possibilidades trgicas. Alm disso, o encontro teraputico exige 
que ns prprios sejamos seres humanos, no mais amplo sentido da palavra. Isto leva-nos a um ponto em que 
j no podemos, meramente, falar em termos psicolgicos, de uma forma neutra ou desprendida; pelo contrrio, 
devemos lanar-nos de corpo e alma no encontro teraputico. Isto ajuda-nos a perceber que tambm j 
passamos por experincias semelhantes e, embora j no estejamos, talvez, envolvidos nelas, sabemos o que 
elas significam. Isto faz parte da grandeza e misria do homem; e  por isso que a leitura de Sfocles e outros 
trgicos antigos constitui, penso eu, uma grande ajuda para ns como psicoterapeutas. 
A nossa principal preocupao, na terapia,  com a potencialidade do ser humano. A meta da terapia  ajudar o 
paciente a concretizar as suas potencialidades. A alegria do processo de concretizao torna-se mais 
importante do que o prazer da energia descarregada  se bem que isto, em seu contexto prprio, tambm tenha 
aspectos obviamente agradveis. A meta da terapia no  a ausncia de ansiedade mas, antes, a transformao 
da ansiedade neurtica em ansiedade normal, e o desenvolvimento da capacidade de usar e viver com a 
ansiedade normal. Depois da terapia, o paciente pode perfeitamente suportar mais ansiedade do que antes mas 
ser uma ansiedade consciente e ele estar apto a us-la construtivamente. Tampouco a ausncia do 
sentimento de culpa constitui uma finalidade da Psicoterapia mas, antes, a transformao da culpa neurtica 
em culpa normal, a par do desenvolvimento da capacidade para usar criativamente essa culpa normal. 
Propus neste captulo um certo nmero de idias que, dou- me perfeitamente conta disso, ficaram pairando no 
ar. Contudo, no me sinto culpado pelo fato de t-las deixado pairando. Foi essa a minha inteno. Espero que 
essas idias, em vez de apresentarem respostas concisas, atuem, como o fermento na massa do po, para abrir 
a outros o caminho das experincias psicolgicas existenciais. 
